Confecções entram em campo para ganhar
Expectativa é de aumento de 20% nas vendas neste ano e de incremento de negócios até a Olimpíada de 2016
Vera Campos
A Copa do Mundo, que começa em junho na África do Sul, é o estímulo que faltava para reaquecer as vendas da indústria brasileira de camisetas e bonés, após três anos de queda na produção por conta da concorrência dos importados e da proibição da propaganda eleitoral nessas peças. Desde dezembro, os pedidos não param de chegar às fábricas, o que deve colaborar para o aumento de 20% da produção sobre a média mensal de dois milhões de camisetas e seis milhões de bonés.
Valdenilson Vado Domingos da Costa, presidente da Associação Nacional das Indústrias de Bonés, Brindes, Camisetas e Similares (ANIBB), acrescenta que a crise mundial iniciada no fim de 2008 colaborou ainda mais para a retração das vendas que, em determinados momentos, chegaram a cair até 50%, levando a uma capacidade ociosa ao redor de 15% a 20%. “Por conta desses fatores, o setor teve de se reinventar, desenvolver coleções com marca própria e exercitar sua criatividade”, diz Vado, que também é um dos sócios da Boneleska Bonés, de Apucarana, o principal polo produtor de bonés do País e, provavelmente, o segundo maior de camisetas. Do total de 800 indústrias que atuam nesses segmentos no Brasil, 250 fábricas e 582 unidades produtivas estão nessa cidade do interior do Paraná, calcula o presidente da ANIBB.
Torcida organizada
Os fabricantes torcem para que a seleção canarinho vá bem nesta temporada, o que é um estimo à produção e ás vendas durante os próximos quatro ou seis anos, até, em vista da realização do Mundial no Brasil, em 2014, e das Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016.
”A cada ano de Copa os volumes têm aumentado muito”, afirma Rodrigo Begalli, diretor-comercial da Bonelli Bonés, também de Apucarana. “Tenho constatado isso não só em nossa fábrica mas na de nossos concorrentes, o que mostra como o mercado está aquecido e que, com esse evento, a demanda crescerá ainda mais”. Segundo Begalli, a Copa de 2010 deve contribuir para elevar em 20% o faturamento anual da empresa.
Diferentemente dos anos anteriores, em que o primeiro semestre geralmente é mais fraco, em 2010 a produção da Bonelli no período aumentou cerca de 30%. De dezembro, quando começaram a chegar os pedidos, a março, a empresa produziu cerca de 100 mil bonés e 80 mil camisetas. “Se fizermos um comparativo com 2009, nosso faturamento praticamente dobrará neste semestre”, diz. E completa, animado: “Não podemos nos iludir, mas é fato que 2010 já está sendo bom demais para o empresário recuperar a autoestima e retomar os investimentos que não puderam ser feitos nos últimos 18 meses.”
Grandes clientes
Para dar conta da demanda, a empresa não necessitou investir na produção, a não ser em algumas contratações. “Nossa produção está com carga cheia desde o início do ano e, se permanecer assim nos próximos meses, certamente teremos um 2010 com muito serviço, para a alegria de todos”, acrescenta Begalli.
A Bonelli produz bonés, gorros, cachecóis, chapéus, camisetas e moletons. Começou apenas com bonés em 1990, na linha promocional. Em menos de um ano, a empresa começou a fornecer aos grandes magazines de São Paulo e do Rio de Janeiro, até hoje seus maiores clientes. Agora, com o projeto de marca própria, começará a expandir seus produtos no varejo para todo o Brasil.
Para a Copa, está oferecendo principalmente bonés, camisetas e gorros (para as regiões mais frias) com estampas dos brasões das principais seleções do mundo, adquiridos por grandes magazines como C&A, Marisa, Riachuelo e grandes lojas esportivas como Decathlon e Centauro. “Outras empresas conceituadas, como o grupo Alpargatas, também fizeram pedidos e já receberam nossos produtos”, conta o diretor comercial.
Investimento em Produção
Mais cauteloso, Ernandes Bessa, um dos sócios da confecção Asa Sul, de Fortaleza, prefere não arriscar previsões e afirmar que neste ano as vendas vão se igualar ou superar as da Copa de 2006, quando entregou cerca de 100 mil camisetas. Nessa linha, o forte da empresa são camisetas de malhas com lantejoulas, para o público feminino, e bordadas, para o masculino, e predominância da cor amarela. Cerca de 70% do faturamento provêm de camisetas promocionais, fabricadas sob encomenda para empresas e distribuídas como brindes. O restante é canalizado para lojas de atacado de algumas capitais da região Norte e para uma loja própria de varejo.
Até março, no entanto, as encomendas ainda não tinham deslanchado. “Se sobrarem camisetas, dependendo do modelo, conseguimos aproveitá-las para a próxima Copa”, diz Bessa. E, se o Brasil conquistar o hexa, a expectativa é continuar vendendo direto até o Mundial de 2014. Capacidade produtiva e de qualidade a Asa Sul tem. Em vista da Copa de 2010 e da de 2014, a empresa investiu em maquinário de bordar mais moderno, em impressoras e máquinas de sublimar, além de melhorar a pontualidade das entregas.
Para o dia a dia
A Marc4 entrou em campo com uma coleção especial de camisetas e camisas polo de seleções mundiais, como parte do projeto Soccer Premium Copa do Mundo. Originais e estilizadas, as novidades prometem fazer sucesso entre o público masculino que gosta de se vestir bem e quer curtir todo o clima da Copa. As peças estarão disponíveis nas principais lojas esportivas de todo o Brasil a partir de maio.
No total, são 40 modelos diferentes, sendo 10 camisetas e 30 polos, próprias para passeio e com designs arrojados, criados pela estilista e gerente de produto Roberta Pádua. Ela aposta no sucesso das peças, que trabalham um conceito diferente, trazendo mais qualidade e requinte ao mercado. “Durante o processo de criação, pensei em desenvolver peças para as pessoas que gostam de Copa e futebol, mas que não necessariamente praticam esporte. Então, surgiu a ideia de fazer peças com uma ‘cara` casual, capazes de atraírem públicos de diferentes idades”, explica a estilista.
As camisetas e camisas chegam nas cores das respectivas seleções. Brasil, Argentina, África do Sul, Camarões, Espanha, Holanda, França, Japão, Itália e Inglaterra são os países representados, e cada um deles ganhou quatro diferentes modelos.
A coleção se destaca ainda por trazer uma malha mais encorpada do que as camisetas tradicionais, com detalhes de recortes, bordados e trabalhos de aplicação com silk flocados. “É uma coleção com inspiração em futebol, mas que pode ser usada no seu dia a dia”, afirma Roberta.
Na primeira etapa do projeto Soccer Premium Copa do Mundo, lançada em setembro de 2009, a Marc4 apresentou ao mercado nacional uma linha especial de bonés de seleções com tradição na Copa. Os acessórios trazem a marca, patente e tecnologia Flexfit, de tamanho único, e chegam com as cores, os emblemas e símbolos das equipes.
Criada em 2004, a Marc4 é uma empresa que trabalha com gestão e desenvolvimento de marcas de moda e acessórios em variados segmentos, incluindo fashion, action, sports, mass market e private label. Integra o Grupo Tricostyl e conta hoje com 26 marcas de moda sob sua gestão, sendo 17 dos principais times da primeira divisão do futebol brasileiro, entre eles Flamengo e Corinthians; marcas de terceiros, como Sthill, Fatal Surf, Ecko, ZooYork e Rocawear, e duas marcas próprias: Stand Up, na linha streetwear, e Mad Soul com uma linha mais fashion. Além disso, a Marc4 é a representante e distribuidora exclusiva no Brasil das duas principais marcas de bonés do mundo: a norte-americana New Era e a sul-coreana FlexFit.
Ao todo, são mais de 3.700 pontos-de-venda ativos distribuídos por todo o território. Entre seus clientes destacam-se Besni, Centauro, Bayard, Netshoes, Jungle Beach, Central Surf, Pernambucanas, Mundial e Roxo & Doentes. A Marc4 tem hoje 64 colaboradores diretos, e seu faturamento vem crescendo a taxas de mais de 50% ao ano, com expectativa de dobrar em 2010. Os planos incluem o licenciamento de mais marcas de moda internacionais com forte apelo no País, o desenvolvimento das parcerias com os clubes de futebol para outros produtos de moda e acessórios, a entrada da empresa no mercado de varejo de nicho e o crescimento do número de clientes em sua área de private label.
Foco em futebol
Marca que atua com confecções para o futebol (produz chuteiras, roupas e acessórios), a Umbro garantiu presença neste mundial com a linha World Cup Classics, composta de jaquetas, camisetas e polos inspiradas nas principais seleções que irão competir na Copa: Brasil, Inglaterra, Itália, Rússia, Alemanha, Argentina e México. Os artigos são encontrados em lojas multimarcas do segmento esportivo de cerca de sete mil clientes ativos. Os clubes Santos e Atlético Paranaense, de quem a Umbro comercializa material esportivo em duas lojas próprias, também ganharam camisetas alusivas ao Mundial.
Subsidiária da Nike Inc., a Umbro tem origem inglesa e é
focada no universo do futebol. “Hoje a companhia combina sua herança na alfaiataria esportiva com o que há de mais moderno no futebol para criar roupas, calçados e equipamentos inovadores, que misturam desempenho e estilo”, afirma a gerente de Produto Marília Chad Ramos. A empresa mantém também uma linha sportswear composta de diversas peças de confecção (camisetas, polos, bermudas, calças), tênis casuais, bolsas e mochilas, parte dela com produção terceirizada.
“Nossa capacidade fabril é grande; fazemos, inclusive, trabalhos de privite labels para outras marcas esportivas multinacionais”, completa a gerente, acrescentando que, em vista disso, não foram necessários investimentos em maquinário e em mão-de-obra com foco na Copa.
A produção teve início com antecedência de nove meses. “Alguns produtos começaram a ser entregues já em dezembro de 2009”, ressalta Marília. “Programamos uma produção “x” e a alocamos em nossas fábricas. Nossos representantes saem em campo apresentando os produtos aos lojistas”, finaliza.

















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